FiarVai
abá caminhando pela mata,
ouve uma saudação,
juriti voz poderosa, rouca, cavernosa,
lenta é sua ode, mas contagia a povoação.
O
baixão, a serra, o morro, o sertão,
conhece a voz da
juriti, que canta
e todos a
conhece, basta ser dali.
Dali da terra, bem
pertinho de te.
E o homem que caminha é dali.
Seu olho penetra a mata,
Como
flecha certeira que corta
A verticalidade da
física em movimento
retilíneo.
Acertando a presa,
rápida.
Que cai. Num instante
repentino.
O homem se
aproxega da
pindoubeiraQue ergue majestosa sua copeira,
Dando abrigo ao
sanhaço,
Bacurau e a lavadeira.
Ergue seu membro superior,
E puxa como a garra
felina a caça,
Tira o homem uma palha,
Um galho, outro galho e outro.
Vários galhos e leva parra casa.
No
oitão da casa,
Os filhos o
arrodeiam,
Vê-o tirar fibra por fibra,
E da cabeça do pai não consegue imaginar.
O
abá quer
monhagá.
O que o chefe quer,
Com tanta
palha?
O que fará?
Olhando sempre,
Sem um olho piscar.
Kunumï ver o mestre fazer,
Para depois imitar.
Uma mão vai por cima,
A oura levemente cruza a diagonal
Da imagem espalmada na terra
E chega a um ponto final.
E cruza daqui
E cruza de lá.
Sem matutar
Constrói um belo,
E sempre único,
Grande e de utilidade,
Um
Caçuá.
Terminada a obra,
Se alevanta e vai buscar.
Mandioca na roça,
Para esposa cozinhar.
As
crianças ficam com a sobra,
Outros
cestinhos vão criar.
Que imitaram o pai,
Esse que viva para
enchegar.
E assim, se aprende,
Nas terras de
Mirandelá.
Criança faz trabalho de criança,
Pra quando adulto saber se virar.